“Se deixar de sentir culpa, perco a minha identidade”

A Teresa sentia sempre culpa por tudo o que não funcionava na sua vida. Quando as coisas não aconteciam como inicialmente planeado, ela sentia-se imediatamente responsável e passava os dias a pensar sobre o que poderia ter feito diferente. Esse padrão de comportamento tornou-se tão marcado na sua personalidade que ela passou a identificar-se com a culpa.

Certo dia, a Teresa percebeu que se deixasse de se sentir culpada por tudo, parecia que estava a perder a sua identidade. Ela questionou-se se seria possível ser outra pessoa sem a culpa que a acompanhava constantemente.

Decidida a mudar essa situação, Teresa procurou ajuda profissional. Durante as sessões ela aprendeu a identificar e desafiar os pensamentos disfuncionais que a levavam a sentir-se constantemente culpada e também aprendeu a perdoar-se a si mesma por erros do passado e a praticar a compaixão.

Com o tempo, a Teresa percebeu que deixar de se sentir culpada não significava perder a sua identidade, mas sim a libertação de um padrão de comportamento negativo que a limitava. Ela começou a experimentar uma maior sensação de leveza e confiança em si mesma, e encontrou novas formas de se relacionar consigo mesma e com os outros.

Desta forma, a Teresa descobriu que a culpa não precisava de ser uma parte indissociável da sua identidade, e que ela poderia definir-se por muitas outras características positivas e saudáveis.

Raquel Calapez

Foto de horacio olavarria na Unsplash

Novos propósitos do trabalho

Ao longo da evolução humana, a atitude relativamente ao trabalho tem sido variável e evolutiva. Desde os primeiros hominídeos até às sociedades modernas, o trabalho tem sido fundamental para a sobrevivência e o desenvolvimento humano, mas a forma como o encaramos e valorizamos tem mudado significativamente.

Os primeiros hominídeos, passavam a maior parte do tempo à procura de alimentos e proteção contra predadores. O trabalho era essencialmente uma atividade de subsistência, que era realizada por necessidade e não por escolha. Ainda assim, o trabalho também servia para melhorar as habilidades e a coordenação do grupo.

Com o desenvolvimento de ferramentas mais avançadas, como a pedra lascada e o fogo, o Homo erectus foi capaz de aumentar a eficiência da sua caça e coleta de alimentos. Esse avanço permitiu a criação de excedentes de alimentos, o que levou ao surgimento de comunidades mais complexas, como as tribos.

Há cerca de 10000 anos atrás surgiu a agricultura, o homem deixou de ser nómada e com a sua sedentarização apareceram as primeiras aldeias. Os postos de trabalho estavam relacionados com o cultivo dos campos e a subsistência.

Durante a Idade Média, o trabalho era considerado um dever divino e uma forma de penitência. Os trabalhadores eram frequentemente escravizados e os que não o eram estavam absolutamente subordinados aos seus senhores feudais para quem trabalhavam longas horas em troca de uma pequena parcela da produção agrícola.

Ainda assim, a atitude em relação ao trabalho começou a mudar com o surgimento do comércio e da manufatura, levando ao início da Revolução Industrial que teve início em Inglaterra no século XVIII, trouxe mudanças significativas na forma como o trabalho era visto e realizado. A mecanização da produção permitiu a produção em massa de bens e serviços, e o aumento da produtividade resultou em ganhos económicos significativos. No entanto, o trabalho também se tornou mais monótono e repetitivo, e a classe trabalhadora tinha frequentemente condições de trabalho deploráveis

No século XX, a atitude em relação ao trabalho começou a mudar novamente. Com a crescente consciencialização dos direitos dos trabalhadores, as condições de trabalho começaram a melhorar e a jornada de trabalho foi reduzida. O trabalho passou a ser visto como uma forma de realização pessoal e de contribuição para a sociedade. A crescente ênfase na educação e na especialização também levou a uma valorização do conhecimento e das habilidades, o que culminou com o aparecimento de novas necessidades e novas profissões mais gratificantes.

Com o avanço da tecnologia, muitas profissões estão a mudar ou a desaparecer e outras vão surgindo, o que levanta questões sobre o futuro do trabalho. Ao mesmo tempo, o crescimento exponencial do conhecimento e da inovação geram novas oportunidades de trabalho em áreas tecnológicas.

Os jovens de hoje em dia estão a mudar a maneira como encaram o trabalho. O conceito tradicional de um emprego estável, com horários fixos e benefícios previsíveis, está sendo desafiado por uma nova geração de trabalhadores que valoriza a flexibilidade, a autonomia e a realização pessoal. Já todos ouvimos falar na geração Z e na sua forma de viver a profissão.

Uma das principais razões para essa mudança é o crescimento do trabalho remoto, que oferece a oportunidade de trabalhar de forma independente e progredir na carreira de uma forma que se adapte às suas necessidades e interesses. Com a tecnologia cada vez mais presente em nossas vidas, o trabalho remoto tornou-se uma opção viável para muitas pessoas, permitindo que trabalhem de qualquer lugar com uma conexão à internet. Isso dá aos jovens a liberdade de escolher onde e quando trabalham, o que pode ajudá-los a equilibrar suas vidas pessoais e profissionais de maneira mais eficiente.

Além disso, muitos jovens estão à procura de trabalhos e profissões que ofereçam mais do que apenas um salário. Eles querem sentir que estão a contribuir para uma causa maior ou a desenvolver um trabalho que traga um impacto definitivamente positivo para a sociedade. Isso pode incluir trabalhos em organizações sem fins lucrativos, empresas sociais ou empresas que têm um forte compromisso com a sustentabilidade e a responsabilidade social.

Outra tendência entre os jovens é a busca por empregos que permitam que eles usem suas habilidades e interesses pessoais. Muitos estão dispostos a sacrificar um salário mais alto em troca de um trabalho que lhes dê a oportunidade de fazer o que realmente gostam. Por exemplo, um jovem que é apaixonado por fotografia pode escolher trabalhar como fotógrafo freelance em vez de aceitar um emprego que o faça estar num escritório.

Em resumo, o novo conceito de trabalho para os jovens é mais personalizado, flexível e orientado para a realização pessoal. Eles procuram trabalhos em que lhes seja permitido serem donos da sua carreira e adapta-la ao seu estilo de vida, ao mesmo tempo em que contribuem para aquilo que crêem ser um propósito maior. Isso não significa que o conceito tradicional de trabalho esteja a desaparecer, mas sim que está a num claro momento evolutivo para se adaptar às necessidades e desejos de uma nova geração de trabalhadores.

Foto de Clark Tibbs na Unsplash

COMO POSSO AUMENTAR A CONEXÃO COM OS MEUS FILHOS?

Dia 28 de Abril – “Fim-de-semana grande! Que maravilha! Óptima oportunidade para estar com os meus filhos, fazer coisas em conjunto e melhorar a nossa conexão! “

Dia 2 de Maio – ” Despachem-se! Estamos atrasados!” – “O fim-de-semana passou, já estamos outra vez com a velocidade dos dia-a-dia e não consegui estar com os miúdos, passei o fim-de-semana a trabalhar e a arrumar coisas em casa. Fomos à praia à pressa, mas encontrei um casal amigo e acabei por estar o tempo todo a falar com eles enquanto os miúdos brincavam. Pensei em fazermos um jogo à noite, mas eles estavam impossíveis de aturar, e fui deitar-los!, Acabámos por não fazer nada do que queríamos fazer juntos. Sinto-me triste! “

Muitos dos pais que me procuram relatam que os seus fins-de-semana acabam por passar muito rápido e as suas intenções iniciais nunca se concretizam! Fazer o planeamento daquilo que gostávamos de fazer, pode ajudar a concretizar as intenções iniciais para a distribuição do tempo.

Mas como crio momentos de partilha e conexão com os meus filhos?

Para nos conectarmos às crianças precisamos primeiro que tudo de nos conectarmos a nós próprios, se não estivermos em harmonia connosco dificilmente vamos conseguir estar realmente presentes quando estamos com as crianças, e elas conseguem perceber perfeitamente, quando estamos ali só a “fazer número”.

Há também algumas actividades que podemos fazer com as crianças e que estimulam a conexão e a partilha de bons momentos:

  • Praticar um actividade física na qual todos participem, por exemplo, ténis, canoagem, Padel, Surf, Patinagem ou andar de bicicleta.
  • Uma caminhada é uma óptima forma de relaxar e criar histórias em conjunto
  • Fazer jogos de tabuleiro
  • Visitar um museu, preferencialmente daqueles mais adaptados a crianças onde estejam disponíveis actividades que os envolvam
  • Fazer um diário de família e preenchê-lo diária ou semanalmente
  • Cozinhar em conjunto, se estimularmos as crianças a participarem na confecção das refeições, esse tempo passa a ser um tempo de família também.
  • Ler em conjunto e falar sobre a história do livro
  • Expressão artística – podem usar diferentes materiais para criar em conjunto
  • Criar tradições e costumes familiares, por exemplo preparar um jantar especial num dia de semana.

Em suma, para nos conectarmos às crianças bastam alguns ingredientes básico:

  • Harmonia interior
  • Vontade real de passar tempo em conjunto
  • Curiosidade
  • Criatividade

Certamente, é importante para os pais criarem conexões mais fortes com os seus filhos, especialmente nos dias de hoje, quando muitas vezes há muitas distrações e exigências de tempo. No entanto, é importante lembrar que cada família é única, e nem todas as atividades mencionadas serão adequadas para todas as famílias. O mais importante é encontrar diferentes maneiras de passar tempo juntos que sejam agradáveis e significativas para todos os membros da família. Um relacionamento forte entre pais e filhos, traz inúmeros benefícios para ambos, incluindo maior confiança, comunicação aberta e uma sensação de pertença e segurança. Por isso, vale a pena investir tempo e esforço em criar conexões mais fortes com os seus filhos!

Raquel Calapez

Foto de Ricardo Moura na Unsplash

Porque tenho dificuldade em acreditar em mim?

Nascemos com duas necessidades básicas: a necessidade de apego e de autenticidade. O apego é uma forte conexão emocional estabelecida normalmente com a mãe ou com o cuidador principal que, para além de nos assegurar a sobrevivência, nos dá carinho, conforto e amor. Todos os mamíferos têm este instinto e necessidade de apego, no entanto, os humanos são os mamíferos com maiores necessidades de cuidado na altura do nascimento porque nascemos muito imaturos face aos outros mamíferos, por isso a nossa sobrevivência depende totalmente desta relação de apego. A outra necessidade básica que temos é a de autenticidade, isto é de estarmos ligados ao nosso “eu”, de reconhecermos as nossas sensações físicas, emocionais e de as respeitarmos.

À medida que vamos crescendo estas duas necessidades básicas vão-se tornando incompatíveis porque desde cedo aprendemos que, quando somos nós próprios, colocamos a nossa relação de apego em causa. Mas como é que isso acontece?

Quem na sua infância não foi ouviu coisas como:

  • “Não interessa se tens calor, já te disse que tens de vestir o casaco porque está frio!”
  • “Não podes fazer isso, eu não gosto!”
  • “Eu não tenho tempo para brincar agora, eu tenho coisas mais importantes para fazer.”
  • “És muito irritante, deixa-me em paz.”
  • “Eu não gosto de ti quando te comportas assim.”
  • “Tu és uma criança má.”
  • “Se não parares de chorar, eu vou-te dar um motivo para chorares.”
  • “És sempre um problema para mim.”
  • “Porque não és mais parecido com o teu irmão?”
  • “Eu não acredito que fizeste isso outra vez!”
  • “O que tu queres não é importante.”
  • “Eu não tenho paciência para te aturar.”
  • ” Já estragaste o meu dia com essa birra.”

A lista poderia ser muito maior, mas penso que chega para ilustrar as coisas que muitas vezes os pais vão dizendo aos filhos e que nos vão ensinando aos poucos a abdicar da nossa autenticidade porque não queremos perder o apego.

Se se colocar na cabeça de uma criança, ou melhor ainda, se conseguir pensar em si em criança, o que mais temia? Claro! Alguma coisa relacionada com os pais, perder os pais, os pais ficarem zangados consigo, os pais deixarem de gostar de si, os pais gostarem mais do seu irmão do que de si e infelizmente para muitos, o medo era de ser maltratado ou de ser emocionalmente magoado.

Consegue imaginar o medo e a dor que uma criança pode sentir ao perceber que pode perder ou colocar em risco a sua relação de apego com os pais? É por isso que aos poucos vamos perdendo a nossa autenticidade, vamos deixando de estar conectados a nós próprios, porque entre deixar de ser ela própria ou perder o amor dos pais, a criança prefere seguramente abdicar de si mesma!

Em criança vamos devagarinho desconectando-nos de nós mesmos, procurando o apego em detrimento da autenticidade, em adultos, surgem dificuldades ao nível da auto-confiança a nível pessoal e profissional, problemas relacionais, tendência para estabelecer relações tóxicas e uma vida muito pautada pelo medo e pela insegurança!

Ao melhorarmos a nossa comunicação com as crianças, damos mais espaço a que possam ser elas próprias, criando um terreno fértil para erguer uma estrutura interna mais forte e coesa!

Porque usamos a Auto-Sabotagem?

A auto-sabotagem é um padrão de comportamento que nos impede de alcançar os nossos objetivos e realizar os nossos sonhos. Pode ser um comportamento consciente ou inconsciente, mas geralmente é o resultado de crenças limitantes que temos sobre nós mesmos e que fazem com que não usemos todo o nosso potencial.

As crenças limitantes podem se desenvolver na infância, quando somos expostos a mensagens negativas de nossos pais ou cuidadores, ou podem ser adquiridas ao longo da vida através de experiências traumáticas ou stressantes. Quando internalizamos essas crenças, elas tornam-se parte da nossa narrativa interna e podem impedir-nos de alcançar os nossos objetivos.

A auto-sabotagem pode-se manifestar de várias maneiras, como procrastinação, auto-destruição ou submissão a outras pessoas. Ela pode ser difícil de reconhecer e ainda mais difícil de superar, mas é possível.

Para superar a auto-sabotagem, é importante identificar as crenças limitantes e trabalhar para mudá-las. Isso pode envolver terapia, meditação, yoga, ou outras práticas que nos ajudem a entrar em contacto com o nosso eu interior e reconhecer os nossos padrões de pensamento e comportamento.

Também é importante ser gentil e compassivo consigo mesmo enquanto trabalha para superar a autosabotagem. A mudança não acontece da noite para o dia, e pode haver recaídas ao longo do caminho. Mas, se trabalharmos honestamente as nossas narrativas internas, podemos superar as nossas crenças limitantes e alcançar o nosso potencial.

Quando a vergonha paralisa!

Como psicoterapeuta, recebo frequentemente pais que estão a ter dificuldades em lidar com o comportamento dos seus filhos, quando é excessivamente marcado pela vergonha. Isso pode-se tornar um grande desafio para os pais, pois a vergonha pode afetar negativamente a autoestima, autoconfiança e bem-estar emocional das crianças.

A vergonha é uma emoção que pode ser usada por motivos diferentes por crianças em relação a outras pessoas, dependendo do contexto e da dinâmica social envolvida. Algumas crianças podem usar a vergonha como uma forma de se proteger de possíveis rejeições ou desaprovações dos outros, tentando evitar comportamentos que possam prejudicar a relação.

Por exemplo, uma criança pode sentir vergonha de falar sobre os seus verdadeiros sentimentos ou opiniões em numa situação social para não ofender ou desagradar os seus amigos ou familiares. Ou, uma criança pode sentir-se envergonhada por pedir ajuda ou apoio, mesmo quando precisa, para não parecer fraca ou dependente aos olhos dos outros.

No entanto, o uso excessivo da vergonha como forma de evitar conflitos ou manter uma fachada de perfeição pode ter efeitos negativos na saúde mental e emocional da criança. A criança pode sentir-se inadequada, insegura e ansiosa por ter que esconder os seus verdadeiros sentimentos ou necessidades. Além disso, a vergonha pode afetar negativamente a autoestima e autoconfiança da criança, levando a problemas emocionais mais sérios, como ansiedade social, depressão e transtornos alimentares.

Portanto, é importante que os pais e cuidadores ajudem as crianças a desenvolver uma compreensão saudável da vergonha e outras emoções, ensinando-as a expressar os seus sentimentos e necessidades de forma assertiva e respeitadora, sem medo de estragar as suas relações. Algumas estratégias podem incluir encorajar a criança a falar abertamente sobre os seus sentimentos e opiniões, valorizar a vulnerabilidade e a autenticidade, e apoiar a criança em momentos de dificuldade ou stress.

A “galinha” do meu irmão é maior que a minha!


O Pedro e o João são irmãos, mas a vida nunca foi fácil para eles. O Pedro tinha uma doença grave desde pequeno, que afetou o seu desempenho na escola e os seus relacionamentos. Os seus pais dedicaram muito tempo e atenção a ajudá-lo a lidar com a sua condição e a garantir que recebesse o tratamento adequado.

Enquanto isso, o João sempre foi um bom aluno, e sempre se esforçou para ter uma vida organizada. Ele trabalhou muito e construiu uma carreira sólida, mas sempre sentiu que não recebia o reconhecimento que merecia. Ele sentia que os seus pais estavam sempre focados em ajudar o Pedro e que ele nunca teve a mesma atenção e apoio.

Com o passar dos anos, o Pedro enfrentou muitos desafios, incluindo um casamento complicado, ele sentia-se muitas vezes sozinho e sem apoio que, enquanto o João continuava a trabalhar arduamente para manter a sua vida organizada e também se sentia sozinho e sem apoio.

O tempo foi passando e a relação dos dois irmãos era cada vez mais distante e de alguma forma alimentada pela mágoa, ressentimento e inveja, porque nenhum dos dois se questionou acerca do que o outro podia sentir. Certo dia, quando perceberam que a relação deles estava à beira da ruptura pensaram em fazer uma sessão de terapia juntos para poderem perceber o que se estava a passar.

Foi então que os irmãos se sentaram finalmente juntos e conversaram sobre os seus sentimentos e experiências de vida. O Pedro admitiu que muitas vezes invejava a vida de João, que parecia tão organizada e sem problemas. O João, por sua vez, confessou que muitas vezes se sentia negligenciado pelos pais e que não recebia o reconhecimento que merecia.

Eles perceberam que ambos enfrentavam dificuldades nas suas vidas, apesar das aparências externas. Eles partilharam um com o outro a dor que tinham sentido durante anos por acharem que o outro era o preferido dos pais e puderam perceber que apesar dos percursos de vida tão diferentes, ao final o que sentiam era muito parecido, ao final, por muitos diferentes, mas acabavam por sentir que não era bons o suficiente, que não correspondiam ao que os pais gostavam que eles fossem e que os pais não os amavam por isso. Para além disso, eles perceberam que muitas vezes tinham invejado uma história de vida muito parecida com a deles, e por causa disso acabaram por não dar valor aquilo que cada um tinha!

Com o tempo, os irmãos aprenderam a apoiar-se mutuamente e a valorizar as suas próprias vidas. Eles perceberam que todos enfrentamos desafios na vida e que é importante reconhecer as nossas emoções e poder falar sobre elas, porque isso ajuda a aceitar quem somos e quando aceitamos quem somos, também aceitamos melhor os outros!

A história destes irmãos mostra-nos que muitas vezes julgamos a vida dos outros a partir das aparências, sem conhecer a verdadeira história por trás delas, porque não estamos bem com a nossa própria vida e com as emoções com que temos de lidar. Quando o Pedro e o João tiveram a coragem de olhar para dentro deles e partilharam o que realmente sentiam, perceberam que, apesar das duas experiências serem aparentemente muito diferentes, eles enfrentaram desafios e dificuldades semelhantes. Esta partilha permitiu-lhes aceitar a inveja que sentiam um do outro e aprender a valorizar e agradecer pelo que têm nas suas próprias vidas.

http://www.raquelcalapez.com

Auto-imunes e Trauma

As doenças auto-imunes ocorrem quando o sistema imunitário ataca erradamente células saudáveis do corpo, levando à inflamação e danos em vários órgãos e tecidos. Embora as causas exactas das doenças auto-imunes ainda não sejam completamente compreendidas, acredita-se que uma combinação de factores genéticos e ambientais pode desempenhar um papel no seu desenvolvimento. Contudo, investigações recentes sugerem que o trauma emocional também pode contribuir para o aparecimento de doenças auto-imunes.

Isto ocorre porque o trauma psicológico pode desencadear uma resposta de “luta ou fuga” no corpo, que envolve a libertação de hormonas de stress, como o cortisol e a adrenalina. Estas hormonas podem ter efeitos negativos sobre o sistema imunológico, incluindo a alteração da atividade dos linfócitos T e B, que são importantes células do sistema imunológico.

Além disso, o trauma psicológico também pode levar a alterações no funcionamento do sistema nervoso autónomo, que regula funções corporais como a frequência cardíaca, a pressão arterial e a respiração. Essas alterações podem aumentar a inflamação no corpo, que está implicada no desenvolvimento de muitas doenças autoimunes.

Um estudo conduzido pela Faculdade de Medicina da Universidade de Pittsburgh descobriu que indivíduos que tinham sofrido traumas emocionais, tais como abuso ou negligência, eram mais propensos a desenvolver doenças auto-imunes mais tarde na vida. O estudo descobriu também que a gravidade e duração do trauma eram factores importantes na determinação do risco de desenvolvimento de doenças auto-imunes.

Outro estudo publicado no Journal of Health Psychology descobriu que indivíduos com doenças auto-imunes tinham níveis mais elevados de sofrimento emocional, incluindo ansiedade e depressão, em comparação com indivíduos sem doenças auto-imunes. O estudo descobriu também que a angústia emocional estava associada a níveis mais elevados de inflamação no corpo, o que pode contribuir para o desenvolvimento e progressão de doenças auto-imunes.

Estas descobertas sugerem que o trauma emocional pode ter um impacto significativo no desenvolvimento e progressão das doenças auto-imunes. Como psicoterapeuta que trabalha com trauma, é importante reconhecer a potencial ligação entre o trauma emocional e as doenças auto-imunes e abordar tanto os aspectos emocionais como físicos destas condições.

No meu trabalho com clientes, descobri que abordar traumas emocionais passados pode ter um impacto profundo na sua saúde física. Trabalhando através de traumas passados e libertando as emoções associadas, os clientes são capazes de reduzir a inflamação crónica nos seus corpos e melhorar a sua saúde e bem-estar em geral.

Ao abordar o trauma psicológico através de diferentes técnicas de psicoterapia, podemos ajudar os pacientes a lidar com a dor emocional e a reduzir a inflamação no corpo. Isso pode incluir o uso de técnicas como a terapia cognitivo-comportamental, a terapia de reprocessamento e dessensibilização através dos movimentos oculares (EMDR), a terapia centrada na compaixão, a Terapia de Reprocessamento Somato-Emocional, entre outras.

Essas técnicas podem ajudar os pacientes a lidar com memórias traumáticas, reduzir o stress emocional, desenvolver habilidades de enfrentamento saudáveis e melhorar o funcionamento do sistema imunológico. Ao tratar o trauma psicológico, podemos ajudar os pacientes a alcançar a cura de dentro para fora, o que pode ter um impacto significativo na sua saúde física e emocional.

É importante notar que embora o trauma emocional possa ser um factor que contribua para o desenvolvimento de doenças auto-imunes, não é a única causa. Os factores genéticos e ambientais também desempenham um papel, e o tratamento de doenças auto-imunes envolve frequentemente uma combinação de medicação, mudanças de estilo de vida e terapia.

Em conclusão, embora seja necessária mais investigação para compreender plenamente a ligação entre trauma emocional e doenças auto-imunes, a investigação existente sugere que a abordagem de traumas emocionais passados pode ser uma componente importante no tratamento e gestão destas condições. Como psicoterapeuta, acredito que a abordagem do trauma emocional é uma parte essencial para ajudar os clientes a curar e a viver uma vida saudável e gratificante.

Dube, S. R., Fairweather, D., Pearson, W. S., Felitti, V. J., Anda, R. F., & Croft, J. B. (2009). Cumulative childhood stress and autoimmune diseases in adults. Psychosomatic Medicine, 71(2), 243–250. https://doi.org/10.1097/PSY.0b013e3181907888

Lovell, B., & Moss-Morris, R. (2004). The relationship between emotional distress and symptoms in autoimmune diseases. Journal of Health Psychology, 9(2), 131–145. https://doi.org/10.1177/1359105304040880

Raison, C. L., & Miller, A. H. (2013). The evolutionary significance of depression in Pathogen Host Defense (PATHOS-D). Molecular Psychiatry, 18(1), 15–37. https://doi.org/10.1038/mp.2012.2

University of Pittsburgh Schools of the Health Sciences. (2009, April 22). Emotional trauma may contribute to autoimmune disease. ScienceDaily. https://www.sciencedaily.com/releases/2009/04/090421163830.htm

Procrastinação: Preguiça ou Medo?

Procrastinar – adiar, protelar, espaçar, retardar, prolongar …

A procrastinação surge normalmente associada à preguiça, este é normalmente o diagnóstico social que se faz das pessoas que adiam constantemente o que têm para fazer, e começa desde a infância quando se diz ” O Pedro nunca quer fazer nada, deixa tudo para a última e sempre que pode, foge às responsabilidades”, o que as pessoas não sabem é que a aparente preguiça do Pedro esconde um medo profundo, medo esse que vive calado, enquanto o Pedro vai empurrando com a barriga as tarefas, os planos, os projectos, os sonhos da sua vida. Depois de muitos anos com o rótulo de preguiçosos, alguns Pedros chegam à consulta à procura de explicação para esta forma de ser, alguns deles pensam que isto se deve a alguma coisa que os ultrapassa, outros já têm a consciência que este processo é uma forma de auto-sabotagem, mas poucos percebem que o que alimenta este movimento é um medo profundo de falhar, e que esse medo de falhar, os protege de um medo ainda maior, o medo de deixar de ser amado. O que os Pedros desta vida não sabem, é que a maior parte de nós tem um bocadinho de Pedro dentro de si, isto é, o medo de deixar de ser amado é muito comum, afinal , quem nunca?

O interessante é que quando partilhamos os nossos medos, eles tornam-se gradualmente mais pequenos, quando percebemos que o nosso medo é o medo do nosso amigo, vizinho, colega ou familiar percebemos que afinal estamos todos ligados pelos mesmos medos, pelos mesmos desafios, pelos mesmos anseios, e por isso mesmo, o medo, que criamos para nos protegermos, tende a diminuir, porque percebemos que afinal não precisamos de ter medo de ter medo!

Automutilação

A Joana sofreu abusos físicos na infância por parte de familiares e como se isso não bastasse, os pais eram muito exigentes relativamente à escola e apesar de ser uma boa aluna, as notas nunca eram suficientes, ainda por cima, na escola, os colegas achavam-na uma nerd, criticando-a activamente e excluído constantemente a Joana das conversas ou dos jogos. A Joana sentia um sofrimento intenso, sentia-se derrotada e que não era capaz, sentia-se menor. Aos 12 anos, aprendeu a lidar com todo este sofrimento que a invadia constantemente, finalmente sentia que podia controlar alguma coisa no que dizia respeito ao seu corpo e à sua vida, finalmente conseguia sentir alguma paz, sentia que a dor que os outros lhe infligiam era aliviada em cada corte que fazia a si própria, a dor que induzia a si mesma, libertava-a da dor que sentia ao pensar no que os outros lhe faziam e o desamparo que sentia relativamente aos maus tratos que recebia, a Joana começou a automutilar-se para poder sobreviver. À minha frente estava agora uma mulher de 40 anos, com o corpo tolhido de dores, com severas dificuldades em manter a atenção e a concentração, que regia a vida por uma rigorosa lista de tarefas que teimava em cumprir em detrimento das necessidades fisiológicas do corpo e sempre que precisava colocava-se num estado de ansiedade que lhe permitia uma fuga eficaz daquilo que não queria sentir, o medo de não ser boa, o medo de não ser suficiente, o medo de se permitir sentir o medo, o medo de ficar sozinha a sentir o medo. Depois de algumas sessões fomos as duas à procura desse medo, entramos nessa floresta medonha e sentámo-nos tranquilamente nas raízes de uma árvore, à espera que esse medo viesse. O medo por fim apareceu, o céu ficou ainda mais escuro e as árvores pareciam vociferar coisas tremendas acerca da Joana. O medo foi partilhado, foi ouvido, foi escutado e de repente o rosto da Joana mudou, as rugas fechadas de expressão, deram lugar a um tímido sorriso, afinal ela podia ver o medo, podia lá ficar, já não precisava de provocar dor para fugir da dor de ver o medo e agradeceu. Agradeceu ao medo por a ter protegido da dor, agradeceu à dor por a ter protegido da solidão e do desamparo, agradeceu por fim a si própria por sentir que não está só!

Raquel Calapez