Porque tenho dificuldade em acreditar em mim?

Nascemos com duas necessidades básicas: a necessidade de apego e de autenticidade. O apego é uma forte conexão emocional estabelecida normalmente com a mãe ou com o cuidador principal que, para além de nos assegurar a sobrevivência, nos dá carinho, conforto e amor. Todos os mamíferos têm este instinto e necessidade de apego, no entanto, os humanos são os mamíferos com maiores necessidades de cuidado na altura do nascimento porque nascemos muito imaturos face aos outros mamíferos, por isso a nossa sobrevivência depende totalmente desta relação de apego. A outra necessidade básica que temos é a de autenticidade, isto é de estarmos ligados ao nosso “eu”, de reconhecermos as nossas sensações físicas, emocionais e de as respeitarmos.

À medida que vamos crescendo estas duas necessidades básicas vão-se tornando incompatíveis porque desde cedo aprendemos que, quando somos nós próprios, colocamos a nossa relação de apego em causa. Mas como é que isso acontece?

Quem na sua infância não foi ouviu coisas como:

  • “Não interessa se tens calor, já te disse que tens de vestir o casaco porque está frio!”
  • “Não podes fazer isso, eu não gosto!”
  • “Eu não tenho tempo para brincar agora, eu tenho coisas mais importantes para fazer.”
  • “És muito irritante, deixa-me em paz.”
  • “Eu não gosto de ti quando te comportas assim.”
  • “Tu és uma criança má.”
  • “Se não parares de chorar, eu vou-te dar um motivo para chorares.”
  • “És sempre um problema para mim.”
  • “Porque não és mais parecido com o teu irmão?”
  • “Eu não acredito que fizeste isso outra vez!”
  • “O que tu queres não é importante.”
  • “Eu não tenho paciência para te aturar.”
  • ” Já estragaste o meu dia com essa birra.”

A lista poderia ser muito maior, mas penso que chega para ilustrar as coisas que muitas vezes os pais vão dizendo aos filhos e que nos vão ensinando aos poucos a abdicar da nossa autenticidade porque não queremos perder o apego.

Se se colocar na cabeça de uma criança, ou melhor ainda, se conseguir pensar em si em criança, o que mais temia? Claro! Alguma coisa relacionada com os pais, perder os pais, os pais ficarem zangados consigo, os pais deixarem de gostar de si, os pais gostarem mais do seu irmão do que de si e infelizmente para muitos, o medo era de ser maltratado ou de ser emocionalmente magoado.

Consegue imaginar o medo e a dor que uma criança pode sentir ao perceber que pode perder ou colocar em risco a sua relação de apego com os pais? É por isso que aos poucos vamos perdendo a nossa autenticidade, vamos deixando de estar conectados a nós próprios, porque entre deixar de ser ela própria ou perder o amor dos pais, a criança prefere seguramente abdicar de si mesma!

Em criança vamos devagarinho desconectando-nos de nós mesmos, procurando o apego em detrimento da autenticidade, em adultos, surgem dificuldades ao nível da auto-confiança a nível pessoal e profissional, problemas relacionais, tendência para estabelecer relações tóxicas e uma vida muito pautada pelo medo e pela insegurança!

Ao melhorarmos a nossa comunicação com as crianças, damos mais espaço a que possam ser elas próprias, criando um terreno fértil para erguer uma estrutura interna mais forte e coesa!

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Autor: Raquel Calapez

Eu sou aquilo que escolho ser!

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