A Joana sofreu abusos físicos na infância por parte de familiares e como se isso não bastasse, os pais eram muito exigentes relativamente à escola e apesar de ser uma boa aluna, as notas nunca eram suficientes, ainda por cima, na escola, os colegas achavam-na uma nerd, criticando-a activamente e excluído constantemente a Joana das conversas ou dos jogos. A Joana sentia um sofrimento intenso, sentia-se derrotada e que não era capaz, sentia-se menor. Aos 12 anos, aprendeu a lidar com todo este sofrimento que a invadia constantemente, finalmente sentia que podia controlar alguma coisa no que dizia respeito ao seu corpo e à sua vida, finalmente conseguia sentir alguma paz, sentia que a dor que os outros lhe infligiam era aliviada em cada corte que fazia a si própria, a dor que induzia a si mesma, libertava-a da dor que sentia ao pensar no que os outros lhe faziam e o desamparo que sentia relativamente aos maus tratos que recebia, a Joana começou a automutilar-se para poder sobreviver. À minha frente estava agora uma mulher de 40 anos, com o corpo tolhido de dores, com severas dificuldades em manter a atenção e a concentração, que regia a vida por uma rigorosa lista de tarefas que teimava em cumprir em detrimento das necessidades fisiológicas do corpo e sempre que precisava colocava-se num estado de ansiedade que lhe permitia uma fuga eficaz daquilo que não queria sentir, o medo de não ser boa, o medo de não ser suficiente, o medo de se permitir sentir o medo, o medo de ficar sozinha a sentir o medo. Depois de algumas sessões fomos as duas à procura desse medo, entramos nessa floresta medonha e sentámo-nos tranquilamente nas raízes de uma árvore, à espera que esse medo viesse. O medo por fim apareceu, o céu ficou ainda mais escuro e as árvores pareciam vociferar coisas tremendas acerca da Joana. O medo foi partilhado, foi ouvido, foi escutado e de repente o rosto da Joana mudou, as rugas fechadas de expressão, deram lugar a um tímido sorriso, afinal ela podia ver o medo, podia lá ficar, já não precisava de provocar dor para fugir da dor de ver o medo e agradeceu. Agradeceu ao medo por a ter protegido da dor, agradeceu à dor por a ter protegido da solidão e do desamparo, agradeceu por fim a si própria por sentir que não está só!
Raquel Calapez

