Apesar do termo desgarrada ser usado para o fado, acho que ele se aplica muito bem ao amor por um filho, porque o fado à desgarrada, tal como o amor por um filho, é um improviso… Improviso porque é tudo novo, inexplorado, é algo que não se consegue sentir antes do momento em que recebemos nos nossos braços meio metro de amor incondicional… apesar de toda a preparação, de todos os livros, filmes, documentários e conversas com outras mães… é naquele momento que tudo muda… para sempre… deixamos de alguma forma a nossa identidade e passamos a ser a mãe de alguém … com todo o improviso que isso implica, ainda com aquela sensação de nos termos perdido e de nos estarmos a encontrar a cada gesto, cada balbuciar e a cada troca de olhares silenciosa, mas ao mesmo tempo cheia de palavras, de afectos que nos dão aquela segurança em cada choro que mais ninguém percebe, mas a mãe sabe o que é … como? ninguém sabe! É o improviso … e os meses passam … e as suas mãos pequenas, parecem gigantes quando nos tocam, e os anos passam, no meio afagos, beijos e amassos e conversas improvisadas … e é nesse improviso … que o maior dos amores cresce dentro de nós!
Só por hoje sou grata pelo privilégio de ser mãe!
Raquel Calapez
